Sobreviventes de chacina no Pará relatam ameaças e agressões de policiais

284

Dois sobreviventes da chacina na fazenda Santa Lúcia, no dia 24 de maio, contam que os policiais ameaçaram e agrediram os trabalhadores rurais antes de matar 10 pessoas que estavam acampadas na fazenda. Os advogados que representam os vinte e nove policiais que participaram da operação não quiseram se manifestar. As informações são do G1.

Vinte e cinco pessoas estavam acampadas na fazenda Santa Lúcia, que fica no município de Pau D’Arco, sudeste do Pará, quando policiais civis e militares foram até a fazenda para dar cumprimento a 16 mandados judiciais de busca e apreensão e prisões temporárias e provisórias de suspeitos de participação na morte de um segurança da fazenda.

Segundo a polícia, as mortes foram resultados de um confronto com os posseiros, já os sobreviventes alegam que a agressão partiu dos policiais.

“A gente começou a correr pro mato. Foi quando comecou muita chuva forte. Nós sentamos, puxamos aquela lona pra cobrir a gente. A gente não ouviu eles chegando. Chegaram a pé e já gritaram: ‘não corre não que vai todo mundo morrer’”, disse uma mulher que sobreviveu ao tiroteio.

Outra testemunha afirma que os policiais foram para cima todos colonos. “E foi atirando para cima da gente. Teve um deles que levou um tiro perto de mim que até me sujei de sangue”, relata a segunda testemunha, cuja identidade também foi preservada.

“Aí tornava a gritar de novo: ‘bota a mão na cabeça pra morrer’”, narra a mulher.”Parece que tava pegando de um a um”, destaca.

Segundo um dos sobreviventes, os policiais estavam muito próximos dos trabalhadores rurais quando começaram a atirar. “Chegaram pra matar”, disse.

As testemunhas também informaram para a reportagem que haviam armas no acampamento, mas elas não foram usadas no dia da operação da polícia. Segundo eles, os assentados foram agredidos sem revidar.

“Eles pegaram meus colegas vivos e tavam batendo muito de pancada, e diziam: ‘por que vocês não correram também?’, e atiravam neles”, relembra a testemunha.

Dos quinze sobreviventes da ação policial em Pau D’Arco oito já foram localizados e ouvidos pelo Ministério Público. Ainda esta semana eles devem entrar em programas de proteção à testemunha, que geralmente garantem a realocação e assistência por até quatro anos.

Segundo a pastoral da terra, as duas testemunhas ouviras pela reportagem não respondem a processos criminais. Eles eram posseiros, e ocupavam a fazenda desde o início do ano.

Um relatório apresentado pela Assembléia Legislativa do Pará concluiu que não houve confronto na fazenda, e que há indício de que policiais atrapalharam as investigações ao retirar corpos da cena do crime e manipularem armas apreendidas dos posseiros.

A Secretaria de Segurança Pública do Pará (Segup) não quis se posicionar sobre os dois depoimentos. Segundo a secretaria, o resultado da perícia das armas e o laudo pericial dos corpos só devem ser divulgados quando o inquérito que apura o caso for concluído.

SHARE